Editorial

Luiz Agner

Resumo


Até o ano 2020, talvez não tenha havido na história humana um período em que se depositou tão massivamente esperanças em promessas de soluções trazidas pela Ciência. Diante da atual pandemia causada pela disseminação do coronavírus, que se alastra velozmente pelos quatro cantos do planeta, a humanidade descobre-se acompanhando, dia após dia, com sofreguidão, o noticiário de jornais, telejornais e redes na expectativa de ver surgir alentos a partir da aplicação sistemática do método científico, empreendida por estudiosos sediados em centros de pesquisa e universidades de excelência, ao redor do mundo.

Embora caiba-nos aqui a tarefa de reconhecer que a observância do método científico por si só não é capaz de ensejar qualquer milagre, em tempos de crise civilizatória complexa e globalizada como a que vivemos, esse método pode representar para centenas de milhares de pessoas — talvez milhões —, uma fonte concreta de esperança, quando a busca por soluções capazes de contribuir para minimizar a trágica perda de vidas, ou suavizar os gigantescos desastres econômicos, é marcada por um sentido de extrema urgência.

Com seu conjunto de regras para tratar informações e produzir novos conhecimentos — a partir de etapas como observação, formulação de hipóteses e interpretação de resultados de experimentos, entre outras —, o método científico tem estado assiduamente presente nas páginas da revista Estudos em Design. Dotada de classificação A2 no sistema Qualis Capes (um indicador de relevância) e ciente do seu propósito de estimular a produção do conhecimento no campo do Design, através da divulgação de consistentes pesquisas, a Estudos em Design vem, mais uma vez, nos apresentar uma pertinaz e representativa coleção de trabalhos, validados com a aplicação de métodos científicos e selecionados de acordo com o fundamental preceito da avaliação cega por pares.

O primeiro artigo desta edição, “Estereótipos de gênero e apelos retóricos no design gráfico: um modelo de análise”, de Bianca Mendes Rati e Marcos Namba Beccari, da Universidade Federal do Paraná, discorre sobre questões relacionadas a gênero na sociedade, bem como no Design. Considerando a sua prática como uma manifestação da linguagem que trabalha com artifícios retóricos como ethos, logos e pathos, propõe um modelo para verificar estratégias visuais em peças voltadas ao público feminino, que possam refletir determinados estereótipos.

Em “Diseño estratégico para la innovación social y la sostenibilidad”, Carlo Franzato, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), procura buscar nas teorias da complexidade o embasamento que o permite discutir o Design estratégico e suas contribuições para inovações sociais, vinculadas à problemática da sustentabilidade. Este subsídio é fundamental na medida em que tem se tornado cada vez mais evidente a insustentabilidade dos modelos de desenvolvimento praticados por nossa sociedade.

No terceiro texto da presente edição de Estudos em Design, a discussão proposta por Iana Uliana Pérez, Mônica Cristina de Moura e Fausto Orsi Medola, todos da Universidade Estadual Paulista (UNESP), vai identificar os aportes da Design science às investigações em Design e ciências sociais. “A Design science nas pesquisas em Design no Brasil” traz a revisão sistemática do Catálogo de Teses e Dissertações da Capes em busca de trabalhos que empreguem métodos como o Design Science Research (DSR) e a Action Design Research (ADR), próprios da abordagem.

No artigo “O que é o Design de Interiores?”, com o objetivo de construir uma definição de Design de Interiores que leve em conta a abrangência de sua atuação, assim como a profissionalização da atividade e responsabilidades profissionais, Paula Glória Barbosa e Edson José Carpintero Rezende, da Universidade do Estado de Minas Gerais, analisam definições compartilhadas por associações de classe e estudiosos. 

Com o propósito de concorrer para aprimorar a interação entre idosos e novas tecnologias, e criar diretrizes para o desenvolvimento de produtos voltados a esta população, Georgina Durán Quezada, da Universidad Iberoamericana Ciudad de México e Vera Maria Marsicano Damazio, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em “Diseño y Longevidad: consideraciones para el desarrollo de proyectos para adultos mayores que involucran tecnologías no familiares”, alertam que tornou-se indispensável a atenção às demandas desta população pois o fenômeno de envelhecimento da sociedade é irreversível.

Focando em empresas sociais, Renata Mayumi Lopes Fujita e Lara Leite Barbosa, ambas da Universidade de São Paulo, no texto “Aspectos do Design abordados em Empreendimentos Sociais e Solidários: uma revisão sistemática”, visam apreender o estado da arte da economia solidária na perspectiva do Design. Através de revisão sistemática de literatura no Portal de Periódicos da Capes, as autoras identificaram que, apesar da heterogeneidade do tema, o Design pode ser visto como facilitador ou mediador da inovação social e da sustentabilidade. 

Em diálogo com estudos etnográficos sobre mascarados da cultura popular, os bate-bolas do Rio de Janeiro são o cerne da atenção de Nilton Gonçalves Gamba Junior e de Priscila Andrade Silva. Os pesquisadores, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, reorganizaram a linha do tempo que relaciona manifestações de vários países para refletir sobre as relações entre a dimensão sagrada e a profana, através da análise formal das fantasias.    

Métodos inclusivos de Design têm a oportunidade de impulsionar o desenvolvimento de artefatos com foco no desempenho da percepção e da compreensão. Em “Pesquisa experimental sobre tipografia inclusiva para a terceira idade”, Bruno Serviliano Santos Farias, da Universidade Federal do Maranhão, e Paula da Cruz Landim, da Universidade Estadual Paulista, consideram que o envelhecimento compromete capacidades motoras, sensoriais e cognitivas de significativas faixas da população brasileira, criando novas demandas por soluções. Nesse contexto, o trabalho busca o estabelecimento de tipografias inclusivas para a terceira idade.

Painéis semânticos possuem o papel de atuar como ferramentas imagéticas — empregadas no decorrer do processo de Design — para embasar definições estéticas de projetos. Através de uma revisão sistemática da literatura, operada com consulta a bases de dados, Marcos Roberto dos Reis e Eugenio Andrés Díaz Merino, ambos da Universidade Federal de Santa Catarina, abordam o recurso e identificam a inexistência de um volume suficiente de pesquisas direcionadas a explorar procedimentos de sua construção e aplicações.   

Por fim, no texto “Game On framework: Design participativo na elaboração de estratégias de gamificação aplicadas ao processo de ensino-aprendizagem”, Isadora Burmeister Dickie, Haro Ristow Wippel Schulenburg e Luiz Paulo de Lemos Wiese, da Univille, desenvolvem e avaliam um framework para a condução de um processo de gamificação, tendo como base o método do Design participativo.

Estabelecida em 1993, portanto com 27 anos de jornada, Estudos em Design se orgulha de ser uma publicação científica com excelente avaliação pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), nas áreas de Design, Arquitetura e Urbanismo, assim como de seu quadro de avaliadores formado por professores e doutores expoentes da pesquisa em Design em nosso país, e espera estar honrando o seu compromisso de favorecer a cristalização de conhecimentos no campo. Desse modo, a revista conclama seus leitores — pesquisadores, profissionais e estudantes — a submeterem trabalhos de caráter científico que objetivem aprofundar a discussão e a reflexão sobre o papel do Design no Brasil e em âmbito mundial.

Luiz Agner

Doutor em Design

 

 

 

 

 

 


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